O que se vê e o que não se vê. Em quase toda ação humana existem essas duas dimensões. Essa é uma ideia simples e profunda de Frédéric Bastiat, economista e filósofo francês do século XIX, que explicava que em toda atitude existe uma parte visível - "o que se vê" - e outra invisível - "o que não se vê". O que se vê é o gesto aparente, o ato imediato que chama atenção. O que não se vê são as consequências silenciosas, que se acumulam com o tempo e, quase sempre, são as que mais importam.

É com esse olhar que vale refletir sobre manifestações públicas feitas sem base técnica, como as recentes declarações institucionais em Oeiras no contexto de representar a causa da preservação patrimonial, ainda que tratando de um imóvel privado, com impostos pagos, projeto assinado por profissional habilitado e autorização válida. À primeira vista, o gesto parece zelo, um ato de defesa da "pureza histórica" e da estética urbana. É o que se vê. Mas o que não se vê, e é o mais grave, são as consequências que esse tipo de imprudência provoca.

Por curiosidade fui em busca de algumas informações complementares, coisa básica quando se atua em comunicação. A iniciativa em questão foi tramitada dentro da legalidade e sob o acompanhamento técnico do IPHAN, órgão responsável pela salvaguarda do conjunto histórico da cidade. O Parecer Técnico nº 26/2025 analisou a futura edificação e não apresentou qualquer oposição à proposta de intervenção como a que foi feita, reconhecendo a compatibilidade da nova edificação com a ambiência do entorno protegido, propondo adequação de cores.

Em seguida, a Secretaria Municipal de Infraestrutura de Oeiras, em conformidade com o rito administrativo, emitiu a Certidão de Uso e Ocupação do Solo (nº 159/2025), documento que somente é liberado após manifestação técnica do IPHAN. Ou seja: ao que se apresenta, nenhum passo foi dado fora da lei ou sem o devido respaldo técnico. Houve zelo, houve procedimento, houve responsabilidade.

Se o imóvel agora questionado fosse realmente de tamanho valor histórico, apesar de ter servido de morada a destacados oeirenses, por que nenhum ente público, associação cultural e histórica ou mesmo particular tomou a iniciativa de propor seu tombamento, como ocorreu com a Casa do Canela? A resposta é simples: não se trata de patrimônio esquecido, mas de narrativa. O discurso de urgência aparece apenas quando convém lacrar.

A Casa de Fazenda do Canela, antes mesmo de haver o tombamento federal pelo IPHAN, a própria família, reconhecendo seu valor histórico, promoveu o tombamento voluntário em esfera estadual, que mais tarde foi incorporado ao conjunto tombado nacionalmente. Esse é o caminho natural quando há consenso sobre a relevância de um bem: a mobilização parte do reconhecimento genuíno, não de um impulso momentâneo.

O que se tentou fazer, no entanto, foi o gesto performático: o ato de chamar atenção, de "lacrar", publicar, causar, aparecer. Só que o zelo virou espetáculo, e o patrimônio, palco. E o que não se vê, por trás desse teatro, são as consequências.

O que não se vê é o medo que se instala no mercado imobiliário. Quem valoriza as ciências econômicas sabe que o mercado é, antes de tudo, sentimento, confiança e expectativa. Proprietários e investidores, mesmo seguindo todas as normas legais, passam a recear a implementação de seus projetos. A incerteza trava investimentos, adia obras, paralisa reformas e empurra o centro histórico à inércia, justamente o oposto da preservação que se diz defender.

O que não se vê também é o desgaste institucional de uma entidade de relevância sendo induzida ao erro pelo sabor emocional de se expor. Quando uma organização lança acusações veladas sem respaldo técnico, mina a credibilidade das instâncias de proteção e confunde a opinião pública. O debate, que deveria ser técnico, se transforma em ruído.

A população, sem entender a diferença entre opinião e norma, passa a ver todos os empreendimentos com suspeita, como se qualquer nova obra fosse uma ameaça. Isso fragiliza o papel do IPHAN, desvaloriza o trabalho de arquitetos e consultores especializados e apequena o debate. É, no fim, um desserviço.

Por fim, o que não se vê é o dano à imagem de quem age de acordo com os procedimentos. Uma obra acompanhada por profissionais consultores, compatível com o entorno e amparada por autorização legal, é lançada à desconfiança pública como se houvesse cometido um crime.

A dúvida, plantada para gerar manchete, custa caro. Diminui o valor de imóveis, desgasta reputações e cria um estigma que qualquer retratação posterior demora a apagar, podendo carregar por muito tempo a pecha de ter "ferido o patrimônio"

O verdadeiro compromisso com Oeiras exige menos lacração e mais lucidez. A cidade precisa de quem construa, não de quem performe indignação. Porque defender o patrimônio é também defender o direito de quem quer fazer bem feito, e isso, por mais discreto que pareça, é o que realmente transforma.

Preservar o patrimônio não é fazer teatro moral, é seguir critérios, respeitar a técnica e compreender o contexto. É possível proteger a história sem transformar o zelo em vaidade. Bastiat lembrava que o erro humano está em julgar apenas o que se vê, e hoje, poderíamos acrescentar: o que se publica!

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